Editorial
O caminho para vencer a degradação passará obrigatoriamente
por outras vias que não as das visões dos burocratas, ou da
óptica mesquinha do "parvenu" estrangeirado,
provinciano, saloio, possidónio e entreguista, que não conhece
os caminhos da História e do Sangue, nem reconhece os seus
sinais e as suas catástrofes.
A manhã para um Homem chega sempre da noite sem fim; tudo
depende, sempre e também, de nós que nos fizemos adolescentes
num país mais pequeno, mais humilhado, mais esquecido, mas que,
em cidades e praias de cães, aprendemos as lutas pela Vida e
pelo Estado. Nós, os reprovados, os marginais, os sonâmbulos e
funâmbulos inquietos à procura de guerras perdidas; podemos ser
ponte, memória, testemunho, últimos e primeiros. É esta a
força de todos nós e de cada um. É este o segredo da Vontade e
do Renascimento.
É esta a mensagem a repetir. E só sairemos desta caverna de
ilusões e mentiras se no fim soubermos reinventar, reencontrar
ou sonhar qualquer Índia.
Jaime Nogueira Pinto, dá-nos uma prodigiosa memória do
"seu" futuro, único para contrapor à decadência que
o compadrio e a corrupção têm feito deste país. Fala-nos da
hora de todos os homens sós que somos, isolados na nossa luta,
impotentes e ultrapassados pelos mais hábeis e menos capazes.
"...Há uma hora mais silenciosa, indefinível em
termos de luz ou de noite, indefinida pelas crónicas ou pelas
experiências. Só sabemos dela porque é a hora em que os
heróis têm medo, os eremitas são tentados pela luxúria, o
guerreiro é atacado pela fraqueza, o crente pela dúvida, o
santo pelo orgulho; é quando o despojado descobre a cupidez, o
justo pede vingança, o peregrino enfrenta a memória de casa; é
uma hora entre todas silenciosa; quando se calam os rios, os
ventos caem bruscamente, os corvos poisam quietos no promontório
e o falcão, espiando a presa, é uma estátua de sal. É nessa
hora que um homem fica sozinho e que tem consigo apenas uma ou
outra palavra escrita com sangue e esta teia de projectos
sublimes e inócuos feitos da mesma neblina dos sonhos e das
miragens, que é o futuro."
Este jornal é-lhe dedicado.
Depende de si - que acaba de o conhecer - com os seus textos,
prolongar pelo futuro qualquer coisa mesmo que em vão.
Tudo o que o preocupa a si, sobre este país e mais
especificamente sobre o Algarve, poderá interessar a outros e
tem espaço reservado neste jornal.
O editor