A grande contradição da
sociedade de consumo é a seguinte: para sobreviver, a indústria
tem de produzir cada vez mais. Só se é competitivo produzindo
muito e mais barato. Isso implica menos mão-de-obra e mais
máquinas.
Atentemos então no paradoxo: menos mão-de-obra quer dizer mais
desemprego. Então o inevitável aumento da produção destina-se
a quem?! Uma forma simples de ilustrar o problema é a seguinte:
cada dia a indústria produz para mais novos 100 consumidores...
à custa de 100 novos desempregados incapazes de consumir!
Como se resolve esta contradição?
(Reprodução interdita
sem expressa autorização do autor.
Para tal contactar através de E-mail)
OS PRÓXIMOS PALADINOS DO
PROLETARIADO
Os futuros campeões na luta pelos direitos humanos, por
mais incrível que pareça, não serão nem tanto os movimentos
socialistas, a igreja ou as sociedades de pendor democrático,
mas (provavelmente após algumas mais convulsões sociais) a
grande indústria, a banca e as redes internacionais de
distribuição comercial.
Tal luta nada terá a ver como actual figurino de defesa das
classes desfavorecidas. Será travada e vencida pelos grandes
produtores mundiais, forçados a exigir do sistema uma
redistribuição justa e equitativa da riqueza. Única forma de
fornecer aos que hoje nada consomem, os meios elementares
necessários ao escoamento continuado da produção de uma
sociedade intensamente manufactora.
As sociedades produtoras e de consumo
Está hoje permanentemente presente, no subconsciente de cada
cidadão, a inevitabilidade da ruptura do actual sistema
económico Ocidental. Tal convicção advém da evidência
elementar de que o sistema entrou em contracção, tendo atingido
já o seu limite máximo de absorção de mão-de-obra.
O sistema, que vem funcionando tendo como base a competição
entre manufactores de produtos semelhantes, obriga-os, numa luta
pela sobrevivência, à apresentação de um produto com a mesma
qualidade, por um preço inferior ao do seu concorrente directo.
Quer isto dizer que cada concorrente, terá de produzir um pouco
mais, para que o preço seja um pouco menor.
Apresenta-se-nos assim a grande contradição do sistema. Sendo
que um produto competitivo é hoje o resultado de uma forte
aposta na robotização, (entendendo-se como tal a substituição
por máquinas de alta rentabilidade de grande parte da
mão-de-obra humana, cara, reividivicativa, com direito a
férias, horas de almoço, turnos, assistência social, licenças
de parto, etc.) assiste-se, como consequência, ao desemprego
massivo de trabalhadores em todas as áreas de produção. Ora
sendo certo que a produção em quantidade leva à queda no
desemprego, diariamente, de milhares de trabalhadores limita no
tempo os potenciais consumidores finais e inevitavelmente, o
consequente excesso de produção das empresas vocacionados para
mercados internos. Estas, obrigadas a novos despedimentos
terminarão asfixiadas, com a consequente perca das suas quotas
de mercado em favor de um natural canibalismo empresarial.
Dado que são estes os pressupostos da produção competitiva,
não restará às empresas em fase de compressão outra saída a
prazo que a sua extinção ou absorção.
De uma forma provavelmente não tão linear, todos sentimos a
existência desta contradição. Sem vislumbrar saída,
reconhecemos contudo, a impossibilidade de se manter por muito
mais tempo um sistema que produz sempre mais, desenfreadamente
mais, para um número de consumidores cada vez menor. Já quase
todos possuímos televisores, rádios, automóveis, etc.
Refiro-me a nós consumidores que representamos menos de dois
quintos da população total do globo. Nós, os que trabalhamos
de uma forma não precária e razoavelmente remunerada. Nós que
não estamos reformados com pensões de mera sobrevivência,
somos os únicos alvos de todos os manufactores. As nossas casas
estão atafulhadas de tecnologia, as nossas estradas são um
permanente calvário de engarrafamentos. Das nossas gavetas
extravasam objectos e gadgets inúteis.
As populações terminais.
O restante da população mundial, porque quase não consome,
não só não interessa para o tecido produtor, como mais grave
ainda, representa uma formidável massa ululante, pedinte,
esfomeada e reivindicativa que vai clamando o seu direito a uma
existência digna, enquanto exaure indiscriminadamente os
esgotáveis recursos da terra e se consome em motins que obrigam
a um formidável dispêndio de recursos em segurança e
armamento. Três quintos da população mundial está muito pouco
interessada no último grito da tecnologia digital e menos ainda
nas virtudes de um simples microondas. Fazem parte daquilo a que
doravante designaremos por populações terminais. Limitam-se a
uma gestão de sobrevivência, exportando os seus recursos em
matéria-prima e mão-de-obra escrava.
Sociedades consumidoras
O advento das novas tecnologias, trouxe consigo a
especialização e a criatividade. A aposta passou então pela
canalização de vastos recursos para a pesquisa e educação
levando a uma primeira cisão das sociedades Ocidentais: as que
adoptaram a cómoda postura de usufruir das vantagens das
descobertas externas, e as que consumiram meios formidáveis na
pesquisa, compra, ou formação de cérebros. As primeiras, que
não só jamais recuperarão do atraso tecnológico, como não
cessarão de aumentar o fosso existente, cairão inevitavelmente
numa fase posterior no grupo das nações terminais.
Designemo-las de sociedades consumidoras. A sua inflação e
balança de transacções, são um quebra-cabeças permanente
para qualquer ministro das finanças.
Sociedades produtoras
Contam-se pelos dedos das mãos o número de países que, devido
a conjunturas ainda mal analisadas, se empenharam na pesquisa e
manuseio de novos produtos. São estas sociedades produtoras
quem, detendo hoje o poder económico, definem a orientação
interna das sociedades consumidoras, delineando sistemática e
compreensivelmente as políticas reguladoras dos mais diferentes
e mesmo contraditórios sistemas políticos, limitando a margem
de manobra dos respectivos governantes, fazendo destes meras
correias de transmissão dos seus propósitos, os quais, nesta
incipiente fase do processo, se resumem basicamente ao
alagarmento do espaço de penetração dos seus produtos e á
compra vantajosa de matéria prima. Num primeiro relance é pois
fácil de entender que sob a mesma tutela do grande poder
económico, se encontram tanto os ditadores, quanto os monarcas,
os governantes liberais, conservadores ou socialistas. Todos os
grandes senhores de pacotilha das sociedades terminais e das
sociedades consumidoras, dependem inteiramente dos manufactores
que geram bens, tanto quanto do grande mercado financeiro, com
quem negoceiam o acesso à sua compra.
Inteiramente dedicada à competição nos mercados florescentes e
viáveis, a grande indústria ignora por completo as sociedades
terminais, e foge ostensivamente das sociedades consumidoras mal
estas denotam sintomas de próxima descida de divisão.
Deixa nas mãos dos seus polícias a contenção, enquanto
aguarda que os seus políticos encontrem uma solução para os
tais três quintos da população mundial que, numa óptica de
consumo, é irremediavelmente irrecuperável, contestatária,
inútil consumidora de oxigénio e grande responsável pela
poluição desregrada e progressiva destruição dos parcos
recursos naturais do planeta.
Absolutamente supérfluos estes três quintos de nós todos.
Embora não seja tema corrente de discussão entre os grandes
empresários - os senhores do mundo - é plausível admitir que a
solução, para eles inevitável, terá de passar um dia pelo seu
extermínio sem dor, através de um processo não muito distante
da esterilização.
Todo o século XX ficará marcado pela interdependência e
conluio, por razões meramente económicas, entre a miríade de
ditadores que povoa o planeta e a grande indústria carente dos
recursos que estes controlam. O seu apoio a ferozes acumuladores
de riqueza justifica-se pois facilmente, dado que os mercados, em
que posteriormente colocam os seus produtos, nada tem a ver com
as massas esfomeadas que tais ditadores produzem.
Tratado como uma mera transacção económica, tem sido
manifestamente vantajoso trocar cem toneladas de cobre extraídas
a chicote, por um qualquer automóvel de luxo. As sociedades
terminais vêm representando para o Ocidente uma mera jazida de
matéria-prima paga a pataco. Tanto mais a pataco quanto o
sistema obriga a apresentar-nos (enquanto consumidores) um
produto competitivo.
A panaceia universal
Também nas sociedades consumidoras a antropofagia natural das
sociedades produtoras se fará sentir, acentuando o fosso entre
elas. Aquelas, ao perderem inevitavelmente para as sociedades
produtoras os seus fornecedores de matéria-prima barata, (que
vinham detendo por via de colonizações diversas) recorrem de
imediato a um truque que os "grandes cérebros" dos
seus sistemas económicos classificam de exemplar: a redução da
remuneração dos seus operários, como contrapeso ao custo final
do produto. Hoje as sociedades de consumo vivem este dilema
permanente: incapazes de competir com as sociedades produtoras,
sujeitas a dumpings sucessivos, sem recursos e com os seus
mercados tradicionais arrebanhados pelas sociedades produtoras,
vêm-se na contingência de fechar as portas ou, como
contrapartida de subsistência, descapitalizar as suas
respectivas populações laborais com os inerentes custos
sociais. Completa-se, finalmente, o ciclo das populações com
reduzido acesso ao consumo, incapazes de sustentar a mesma
máquina produtiva que os sustenta. O ciclo da
pescadinha-de-rabo-na-boca: se não há dinheiro não se consome,
se não se consome produz-se para quê? Se não se produz, de que
serve manter o que resta dos trabalhadores?
O seu primeiro ciclo. Aquele que transforma sociedades
deslumbradas pelo consumo indiscriminado da produção
estrangeira, em maltrapilhos e pedintes obrigada a despojar-se
das suas reservas, de todos os valores transaccionáveis
incluindo os valores morais, (a corrupção é disso mesmo um
fenómeno típico) alienando o seu território à especulação e
a interesses que vão desde o mero depósito de detritos das
sociedades produtoras, até à exploração por terceiros das
riquezas da terra. A outrora feliz e tresloucada sociedade
consumidora, assemelha-se agora perigosamente, aos inconsequentes
utentes de cartões de crédito que, de repente, se descobrem
individados, vergonhosamente devassados, nas mãos dos bancos que
lhes deu a lenha com que se queimaram.
Mil sociedades individuais de consumo em vias de hipotecar ao
banco o seu apartamento na Brandoa.
As classes trabalhadoras, nesta fase, vêm no patrão o seu
grande inimigo: explora o seu esforço laboral remunerando-o
parcamente. Os patrões, por seu turno, vêm nas classes
trabalhadoras um pesadelo cíclico que se lhes apresenta
pontualmente todos os dias trinta. Antes ainda de anunciar a
impossibilidade de satisfazer os seus compromissos para com os
trabalhadores, recorre aos habituais subterfúgios ao seu alcance
que incluem, desde logo, o não pagamento ao estado e sistemas de
segurança social as contribuições devidas. Agravando de forma
drástica o acesso ao consumo de muitos outros grupos. O estado
ao ver-se obrigado a uma permanente injecção de fundos, por
exemplo nos sistemas de aposentação, em conjunto com a baixa
permanente da ratio população activa-reformado, sentirá uma
natural tendência para o corte no valor real das pensões. O
que, em conjunto com medidas semelhantes, que deverão ser
tomadas em domínios tão diversos e importantes como a saúde, o
ordenamento e a educação (esta última com a sua função
primeira ignorada: a de formar não apenas cidadãos aptos para
um mercado de trabalho muito competitivo, mas ainda consumidores
esclarecidos e selectivos, capazes pela sua intervenção, de
preservar o sistema imune ao escoamento indiscriminado da
produção dos grandes manufactores, que se apoia, nas sociedades
incultas, em regras primárias de marketing que seduzem pelo
deslumbramento) tais medidas, dizíamos, só poderão levar ao
mal-estar que é sinónimo da aproximação da passagem ao estado
de sociedade terminal.
O segundo ciclo
Cada sociedade consumidora que cai, representa um rude golpe na
grande teia industrial, limitando o escoamento da sua produção.
As sociedades produtoras, porque agem isoladamente, não se vão
dando conta de que, paulatinamente, se encurralam no próprio
quintal. Como não é ainda um problema insolúvel, o qual de
qualquer forma sabem não poder jamais vir a resolver directa e
isoladamente, limitam-se a assestar baterias de forma mais
enérgica, sobre os mercados restantes, nas mãos dos seus
parceiros de competição. Enquanto restar uma sociedade
consumidora, é para lá que convergirão os esforços de
marketing de todos os produtores.
Contudo, inevitavelmente, chegará o dia em que os custos de
aliciamento ao consumo, junto dos já poucos consumidores
disponíveis, se tornará insuportável. O insucesso colectivo
levará à descoberta de um vasto mercado desejoso de consumir
que só não o faz porque os respectivos sistemas lhes não
permite.
Pouco preocupados com a aparente semelhança da acção que vão
empreender com os sistemas sociais de cariz Marxista, dois
poderosos conjuntos de interesses se verão compelidos a unir
esforços: a indústria e a banca.
Esta última que colheu os enormes benefícios resultantes do uso
inconsequente do "cartão de crédito", tornando-se a
proprietária, não de um apartamento na Brandoa, mas de toda a
cidade, descobrir-se-á, após o deslumbramento inicial típico
de cada novo-rico, incapaz de transformar em metal sonante as
inúmeras propriedades, que de modo algum deseja gerir. É que,
mais uma vez, não encontrará quem consuma o produto que
oferece, agravado com a possibilidade de vir ainda a receber,
mais uma vez como pagamento dos seus créditos, as próprias
grandes indústrias sem soluções de escoamento. Triste e
delirante destino o de se ser dono das ruínas de uma
civilização.
A solução estará então à vista: é necessário derrubar
todas as tendências para a usura e o aforro, remunerando os mais
carenciados. A velha máxima revolucionária será então
acrescentada com mais qualquer coisa: "A cada um segundo as
suas necessidades, para que possamos escoar a nossa
produção". O capital removerá do poder político a classe
que anteriormente protegera. Manifestamente incapaz de absorver
os fundamentos da nova dinâmica substitui-os por técnicos,
gestores e policiadores de qualquer fuga ao princípio da
distribuição equitativa dos recursos estagnados.
Numa lógica de mercado, recurso estagnado é todo o dinheiro
acumulado visando apenas a sua reprodução e manutenção.
As funções do dinheiro são apenas as de comprar o trabalho e o
seu resultado.
Será o fim do estado-mitra, dos abonos, das caixas de
previdência e das pequenas contas a prazo para "prevenir a
velhice". Com dinheiro nos bolsos ninguém precisa das
instituições públicas de solidariedade. Os privados têm para
quem produzir, competindo entre si em qualidade e em preço. O
estado terá onde cobrar os seus impostos. A função primeira do
imposto é a de retirar todos os excedentes - e só os excedentes
- aplicando-os na coisa comum.
Hoje
A única tábua de salvação a que se poderão hoje agarrar as
sociedades consumidoras, para evitar um dia o repescamento de
entre as sociedades terminais, passa pela total inversão das
respectivas políticas redutoras.
A demagogia que anima os seus governantes e as metas impossíveis
que pretendem atingir, (tão ridículas como o de procurar vir a
agarrar o "grupo da frente", cioso detentor do
conhecimento tecnológico, investindo em pesquisa, formação e
pós-formação, verbas inferiores às canalizadas para a
preparação de um novo xarope para a tosse, por qualquer
multinacional farmacêutica) leva-os a negar a inevitabilidade do
colapso. Sendo que cada novo governante que entra, encontrará
mais agudizadas as questões, que são em si mesmo, a razão de
ser de toda a divergência política, gerindo o seu mandato na
busca insana de panaceias para cada nova pústula, que brota de
uma sociedade em contracção exponencial.
Sem tempo, nem sequer perspectiva para preparar o futuro.
O segredo para o sucesso da sociedade de consumo, afinal,
devemo-lo a Marx:
Só uma distribuição equinânime poderá satisfazer o
proletariado nas suas necessidades elementares, pois só este, e
deste modo, será capaz de absorver o produto de uma sociedade
que numa lógica de mercado, é forçada a produzir
incessantemente.
O novo e inevitável Deus-Consumo, capaz de nivelar as
sociedades, substituirá no coração dos homens todas as
religiões e ideologias, já sem voz nem sentido, que não
souberam estar com eles nem compreender as suas paixões.
Zero - 1999
Ler artigo conexo:
A "bancarrota" do nosso
descontentamento...
(José Dias Egipto)