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O ceguinho, o repolho e o político
Fazia-me impressão, quando miúdo, um cego que aos Domingos se sentava na esquina da minha igreja.
Abria no colo, um imenso livro picotado que tacteava com todos os dedos das duas mãos, enquanto olhava, em alvo, para o céu, com o esgar característico dos cegos.
Na altura, eu não sabia ainda que o velho lia um livro num código de pontilhados Braille que me era totalmente desconhecido.
Mais tarde, fui descobrindo essa e muitas outras novidades: o mundo das linguagens que me são estranhas.
Hoje qualquer fórmula matemática simples como a expressão da energia cinética (w=m.c2(1/v1-v2/c2-1)), continuam a ser para mim um verdadeiro mistério.
Como misteriosas são também essas fórmulas simples sobre o dia exacto em que se plantam as batatas, ou se podam as vinhas.
Tenho plena consciência de que cada um de nós traz o conhecimento do seu próprio aprendizado. Daí a importância de todos, como conjunto portador do conhecimento.
E digo todos, do Papa ao pedinte, que bem vistas as coisas são o símbolo de uma mesma verdade.
Então porquê a arrogância dos poderosos? A sobranceria dos políticos? O ríctus de superioridade que marca a face de qualquer burocrata provinciano?
Muito mais grave ainda, quando é sabido que o Algarve é apenas uma pequena província de um país pobre, encaixado num de cinco continentes que compõem um planeta obscuro de um periférico sistema solar, perdido nos confins de uma Galáxia de 5ª categoria que, composta por cem mil milhões de estrelas, faz parte de um conjunto de 160 mil biliões de Galáxias sem importância no conjunto das nebulosas celestes que povoam o horizonte finito mais próximo de nós.
A importância de uma Galáxia é, em si mesmo, tão insignificante quanto o facto de existir (um em muitos) ponto no nosso Universo conhecido por Messier 87, que engole três Galáxias em cada segundo!
Sabe-se que uma Galáxia média é composta por vários milhões de Sistemas Solares, maiores que o nosso, e que um homem só, isolado nas suas verdades, cego nas suas convicções, ao olhar para o céu, fixando por exemplo, a nebulosa de Orion, não sonha sequer que o espectáculo que contempla nesse instante já passou, dois mil anos atrás no tempo em pleno Império Romano: é que, viajando a trezentos mil quilómetros por segundo, a luz de Orion, uma Galáxia "aqui ao lado", levou 730 mil dias para chegar até nós.
E contudo...
Todo o Universo, até ao infinito, está presente numa qualquer calejada mão de um camponês. É ela que orienta as sucessivas gerações que produzem os saborosos repolhos, bem mais importantes que qualquer ridícula pose, de um qualquer político ou autarca nebuloso que passa no tempo a uma velocidade muito inferior à da luz.
O mundo nasceu sem o homem e morrerá, provavelmente, sem ele. Tudo é pois provisório. A generosidade, a mentira, a perfídia, o cego, eu, o prepotente o Universo e o repolho.
Alphonse