O que eu quero é casar
com uma camone
e sair daqui p'ra fora!
Quando se fala com um jovem dos campos algarvios acerca dos seus
anseios e objectivos, a resposta é invariavelmente a mesma:
"- quero é ir para a costa trabalhar nos hotéis:"
Bolas para isto.
É que a razão de ser do Algarve, aquilo que traz até nós os
turistas ávidos de Sol, não é propriamente apenas a sua
situação geográfica mas também o seu povo.
Um povo que se aperaltava aos domingos, rejubilava de prazer nos
dias de feira, nas festas de Maio. Que impava o peito quando
falava da sua terra. Que conservava os costumes e os hábitos. A
sua cultura própria.
E era tão simples que tudo continuasse assim. Bastava que se
compensasse justamente o trabalho rural. O justo valor do
trabalho árduo mas sadio, evitando-se o êxodo que deixa os
campos do Barrocal e da Serra ao abandono. As casas em ruínas.
Os campos cobertos de mato.
Gente generosa dos campos, perdida, olhando a linha do horizonte
sem sentido. Engolidos por uma máquina medonha que pode sucumbir
a qualquer momento.
Sabem o que faz a Secretaria de Turismo Suíço? Reserva
anualmente uma grossa fatia dos lucros turísticos para manter
fixados nas montanhas os seus habitantes naturais. É que os
dirigentes suíços são gente inteligente. Compreenderam
depressa que se as montanhas se desertificassem não haveria quem
tratasse dos taludes que previnem as avalanchas, acabar-se-iam as
belas cabanas de montanha, os costumes dos tiroleses, os pastos
de Stalden ou de Payerne, as pequenas economias agrícolas dos
vales de Ticino, as belas vinhas de Lumainer.
Acabar-se-ia a Suíça como paraíso turístico, extremamente
caro porque muito procurado.
E o que se vê nas montanhas suíças não é gente transformada
em folclore saloio. Não. É povo autêntico e feliz. Rico e
próspero. Cioso da sua terra, dos proveitos que dela colhe!
Gente que orgulhosamente abre as portas das suas casas rústicas
a qualquer chico-esperto do nosso saber turístico:
Construções ancestrais. Muitas delas em madeira. Mulheres
rosadas de aventais de renda. Crianças sadias e cultas. Vacas
gordas de úberes cheios. Potes de mel. Lareiras a lenha.
E contudo no conforto do seu dia-a-dia o montanhês suíço tem
ao seu dispor o que lhe souber melhor: a carroça, o Range-Rover,
as botas cardadas, o jornal regional diário ou um curso de
tecnologia agrícola.
Toda a sua produção é subsidiada pelos fundos turísticos,
aufere de créditos, são-lhe ministrados cursos de
rentabilização de solos e economia rural.
O montanhês suíço não quer trabalhar como porteiro dos seus
hotéis. Reserva-os para os emigrantes portugueses, turcos e
jugoslavos.
Por cá é o ridículo.
Não há nem cão nem gato que queira o passado. Um passado
miserável de fome e obscurantismo. De montes raquíticos,
cobertos de alfarrobeiras velhas e amendoeiras sem préstimo,
vendidas ao desbarato a intermediários impunes e gulosos.
Todos buscam o eldorado na costa.
A escravatura baseada no analfabetismo e na vergonha de não se
ser nada. Os empregos reles. Bagageiros, porteiros, jardineiros,
mulheres-a-dias, paquetes, criados, serventes, moços.
O descontentamento, o desenraizamento, a droga, a contestação
primária.
Os turistas que ainda nos visitam não são aquela gente parva
que supomos. Sabem dos nossos espectáculos artificiais de
cultura e folclore realizados nos salões dos hotéis. Sentem a
falta dos locais genuínos onde se misturavam com o povo
procurando diluir-se nele.
Vêem desaparecer os mercados com artesãos dos montes. Riem-se
das pseudo chaminés algarvias moldadas em cimento, fabricadas em
série e vendidas na berma da nacional 125.
Riem-se de nós e exasperam-se por terem caído no logro desta
imensa Torremolinos que é o Algarve hoje.
O Algarve - a amêndoa mecânica - como lhe chamou um dia um
articulista da capital, precisa urgentemente de se virar para o
interior. Mas sem que comece a crescer água-na-boca com as
contas-de-cabeça do género do "isto vendido a metro dá-me
quanto?".
Renato Montalvo