A conquista de Silves
Relatada por um combatente
Para a conquista de Silves em 1198, o rei D. Sancho contou com a
ajuda preciosa dos povos cristianizados do norte.
Organizados em grupos fortemente armados e, em nome da fé, os
cruzados institucionalizaram a pilhagem.
Verdadeiras máquinas de guerra, são a continuação lógica dos
viquingues e normandos que durante séculos vinham pilhando as
costas do Mediterrâneo.
A ajuda dos cruzados ingleses fora já decisiva na conquista de
Lisboa. Afonso Henriques teria mesmo representado aí um papel de
segundo plano. Mal armado e com poucos efectivos, ser-lhe-ia
impossível conquistar o importantíssimo e estratégico castelo
sem a ajuda da formidável máquina militar inglesa.
Em Silves, de novo, os cruzados ingleses seriam fundamentais. A
cooperação só foi possível devido ao acordo feito com os
nossos primeiros reis: após a conquista de uma praça forte e
durante o período de participação que se lhe seguia os
cruzados detinham o direito exclusivo ao saque.
Todas as riquezas, bens privados e públicos, ouro, mulheres,
animais e produtos agrícolas lhes pertenciam.
A voracidade, a crueldade e a violência dos cruzados ingleses
fazia deles uma força temida pelos povos árabes da península.
As orgias que cometem e a rapinagem exaustiva de bens irá
constituir uma constante durante toda a conquista dos
territórios nacionais do sul. Combatendo o Islão, ajudando as
ideias de expansão dos reis cristãos, os cruzados iam
acumulando fabulosas riquezas.
O relato que se segue, de autoria de um cavaleiro inglês,
mostra-nos bem a importância decisiva da sua acção na
conquista de Silves.
Tendo visto uma narração ou antes itinerário do que aconteceo
á frota dos Cruzados que acompanhárão a el-rei D. Sancho I na
conquista de Silves, julguei que tinhão aqui logar algumas
circunstancias que esclarecem ou são ommissas nas chronicas dos
nossos reis, principalmente por ser aquella noticia dada por hum
individuo que fazia parte da expedição, e apparecer pela
primeira vez impressa neste anno de 1840 a diligencia e cuidados
do cavalheiro Constanzo Gazzera, Secretario da R. Acad. das
Scienc. de Turim, e Socio da de Lisboa, á qual teve a bondade de
offerecer hum exemplar. Alli diz o A. que tendo chegado a frota a
Lisboa com 11 náos no 3º dia depois da oitava de S. João
Baptista (3 de Julho) de 1189 encontrára no porto mais 24 náos
também de Cruzados; e todos forão convidados por el-rei para o
coadjuvarem na conquista de Silves, a que se prestárão com a
promessa de lhes pertencer o saque de todos os moveis que a
cidade contivesse. Tendo-se demorado 11 dias sahirão barra fóra
na tarde do undecimo dia com 36 náos grandes, e huma galé de
Galliza que se lhes unira, e outras muitas de Lisboa. No 3º dia
depois do meio dia avistou a frota o castello d'Alvor, situado
junto ao mar, e alguns outros logares desertos, cujos moradores
tinhão sido mortos em Alvor. Não longe dalli entrou no porto de
Silves, cuja terra estava optimamente cultivada, mas sem
habitantes que tinhão fugido para Silves, a qual cidade fica
distante do mar huma milha alemã, sendo mais longe por agua em
razão das tortuosidades do rio.
Conta o A. aqui huma circunstancia que he omissa em nossas
Chronicas, e vem a ser. - Que o castello d'Alvor fora destruido
por outra frota de 55 náos de Cruzados de nostro imperio et de
Flandria, que quatro semanas antes da sua entrar em Lisboa,
d'alli havia sahido, e de caminho commetera aquelle estrago, no
qual, ouvira dizer com verdade, tinhão sido mortas perto de 5600
pessoas, não se perdoando a sexo nem idade. -
Descrevendo o estado da cidade diz: - Em grandeza não differe
Silves muito de Goslar (cidade no ducado de Brunswick), porém
com muito mais casas e habitações amenissimas. - E mais abaixo
acrescenta, que estava muito mais fortificada do que Lisboa, e
era dez vezes mais rica e grandiosa em edificios; cercada de
muros e fossos, de tal arte que nem huma só choupana se
encontrava fóra do recinto, dentro do qual havia quatro
arrabaldes fortificados: o primeiro delles he huma vasta cidade
no valle chamado Rovalle. A cidade maior está situada no monte,
a que chamão Almadina, tendo outra fortificação na encosta que
olha para Rovalle descendo para o caminho d'onde se tirava agua,
e do rio que se chama Widrade (Arade); outro rio corre para o
mesmo, o qual he denominado Vydelouca (Odelouca); e sobre este
caminho da agua tem quatro torres, de modo que a cidade superior
se provesse d'agua em abastança, e esta fortificação era
chamada Coirasce (Coiraça).
A entrada pelas portas era tão tortuosa e formada com tantos
angulos que mais facilmente se poderião escalar os muros do que
entrar por ellas. O primeiro castello chamava-se Alcay. Havia em
Rovalle huma grande torre, da qual sahia para Almadina hum
caminho coberto, de sorte que della se podesse ver o que
acontecesse da banda de fóra do muro d'Almadina, e podesse ser
offendidos da torre, e pela parte opposta os que acommettessem o
muro pela rectaguarda, e esta torre se chamava Alvierana (será
antes Albarrãa, nome arábico que se dava às torres, em que se
depositavão os dinheiros, que das rendas da Corôa annualmente
sobejavão).
Observa o A. que estes são appellativos e não proprios, pois
onde se encontrão semelhantes localidades em huma cidade por
aquellas terras lhes dão taes nomes assim os Christãos, como os
Pagãos. Nota tambem que nos muros daquellas fortificações
estavão as torres tão perto humas das outras, que huma pedra
lançada à mão d'humma dellas chegava à terceira, e em certos
sitios erão ainda muito mais proximas.
Começou o cerco da cidade logo que os cruzados assentárão os
seus arraises, e conferenciou com elles o cabo da gente
portugueza (conde D. Mendo de Sousa), que tinha hido por terra.
Logo no primeiro acommettimento foi tomada a cidade inferior; a
defeza porém foi maior depois. Na oitava de Sancta Maria
Magdalena (29 de Julho) chegou el-rei com mais força; e
dobrárão os assaltos até que por ultimo, tomada a Coiraça, e
vindo por isso a faltar agua aos cercados, se apresentou o seu
alcaide Albainus offerecendo entregar a cidade a partido de vidas
e fazenda; fói-lhes concedida a primeira parte e negada a
segunda; e no dia 3 de setembro sahio o alcaide só a cavalo,
acompanhado de muitos a pé no mais deploravel estado de magreza
e penuria, tendo decorrido seis semanas e tres dias desd'aquelle
em que começou o cerco. Havia então na cidade 15:800 habitantes
d'ambos os sexos, asseverão os portuguezes que não havia cidade
em Hespanha que fosse mais forte, nem mais prejudicial aos
Christãos. A nossa gente, quando começou o cerco, orçava por
3:500 homens de todas as classes e idades: o exercito do rei
compunha-se de muitos de cavallo, peões, e bastante gente da
tripulação das galés, e com elle estavão também os
Cavalleiros Templarios de Jeruzalem; os de Cister, cuja cabeça
he Calatrava em Castella, e Evora sua filial em Portugal; e os de
Jeruzalem; estes ainda de tres classes, do Templo, do Santo
Sepulcro, e do Hospital, todos os quaes tem rendas naquellas
terras.
O rei, tendo ordenado as cousas, e encarregado o governo da
cidade ao cabo da milicia, e deixando-lhe muita gente, partio
para os seus dominios no sexto dia depois da entrada da cidade.
Este elegeo hum clerigo Flamengo para bispo de Silves, e com elle
ficárão alguns Flamengos. Convidou-nos para o acompanharmos à
conquista de Santa Maria de Faro, ao que não annuimos.
Pela conquista de Silves se sujeitárão aos Christãos os
seguintes castellos, que eram da sua dependencia: - Carphanabal,
Lagus, Aluor, Porcimunt, Munchite, Caboiere, Mussiene, Paderne.
Todos estes castellos estavão inteiramente vazios, porque os
habitantes se havião retirado a Silves, mas estavam bem
construidos e com bastante solidez. Alvafere (Albufeira) tambem
se entregou ao rei com medo de nós. A frota largou de Silves a
21 de setembro seguindo o seu destino.