Salvemos a nêspera
lusitana!
Todos já devem ter reparado nas magníficas nêsperas espanholas
que invadiram as mercearias e supermercados do Algarve.
Nêsperas luzidias, carnudas e redondas.
Nota-se logo que são normalizadas, que estão de acordo com as
regras oficiais de calibragem de fruta da época.
É que são todas iguais. Todas monotonamente grandes e gordas.
A um preço idêntico ao das nossas enfezadas nêsperas saloias,
não deixam no entanto de nos tentar. Poucos somos os que
resistimos a adquirir um quilo. Para experiência.
Serão docinhas? De caroço pequeno?
Com o meu saco de compras repleto de outras coisas boas, eu não
conseguia pensar em mais nada que nas minhas belas e europeias
nêsperas.
Que decepção senhores! Aquela coisa não sabe a nada. Onde
estão as velhas nêsperas da aldeia? Que tinham de mal as minhas
plebeias? Que vos fizeram os calibradores, minhas amadas?
Esta fruta enganadora e sensaborona deve ter vindo para ficar.
Dentro de alguns anos terão substituído por completo o gosto
das portuguesas. Quando vencerem a luta pelo mercado, já poucos
então, em Portugal, saberão do gosto verdadeiro da nêspera
saloia.
Incalibrável e sem qualquer beleza exterior, a nossa velha
nêspera não é competitiva. Só lhe resta a morte.
Árvores arrancadas, nespereiras reformadas.
Produzidas por imensos camiões TIR - as calibradas - chegam-nos
daqui do lado frescas, reboludas, em gostos tutti-fruti.
Ele é as nêsperas, a Fanta, a Menorquina, os caramelos, as
bolachas Guetara, a Pescanova, os Seats, os bancos, os hotéis e
as bonecas que dizem "olá".
A trabalheira que meia-dúzia de nacionalistas tiveram em
Dezembro de 1640 para provar ao mundo que Portugal não era uma
província Espanhola.
Portugal, com a sua integração na CE, não sofreu sobremaneira
a invasão dos produtos correntes alemães, italianos ou
franceses. Somos um mercado insignificante. Representamos menos
de 3 milhões de consumidores médios. Somos isso sim uma coutada
de Espanha.
Baratucha e popularucha a sua produção corrente está cá em
casa como peixe na água.
A nossa incipiente indústria faz os espanhóis rir às
gargalhadas.
Muito embora nos seja sempre possível contrapor com uma invasão
maciça de rolhas de cortiça, camisas Lacoste ciganas, cassetes
piratas e bacalhau da Noruega!
Viva a nêspera lusitana!
Conceição Monteiro